sábado, 6 de outubro de 2007

CIDADE MENINA

É confuso o sentimento de quem pensa com carinho nesta criança carente de parentes de sangue, de filhos dignos e gratos, de pais protetores e zelosos. É muito triste ver essa menina tão sem amigos sinceros, que lhe sonhem sonhos coloridos, que vislumbrem um futuro sólido. Tão solitária, sem quem perceba e se preocupe com tua fragilidade, com a debilidade de teus órgãos vitais, não percebem o teu inchaço, cheia de vermes e parasitas, perdendo o viço e, sem força, se encolhe, aleijada, perde espaço. Cheia de egoístas, explorada e prostituída, não é mais tão serena; tão pouco segura, tenho medo de teu convívio com meus filhos – veja, também sou egoísta. Não tens culpa, como cidade menina, és inerte; somos tua vida, tua história, teu destino. Triste sina a tua: és feita daqueles que te amam pelo que tens a dar, mas nada te dão. Roubam-te o futuro digno e tranqüilo de grande celeiro, de provedora de alimentos, de pioneira em tecnologias, de sólidas cooperativas, de tradição, de família. Veja, acordamos com o noticiário criminal da melhor qualidade, teus muros sobem, as grades aumentam, há cerca elétrica, câmeras vigiando a calçada, assalto a mão armada, assassinato encomendado, segurança contratado. Onde estão teus pensadores? Teus intelectuais? Os jovens sonhadores que mudam o mundo? Por onde andam teus artistas? E o teatro, a dança o folclore? Pelo menos um jornal... Uma cidade sem poetas, sem serestas nem coral!
Assim não há alma que agüente; tudo se embrutece. Tão criança e já com os vícios e as chagas de uma puta velha, traz em teu seio as serpentes ferozes do tráfico e da malandragem; tão menina, e já produzes teus primeiros menores delinqüentes, tão cidade nas manchetes de jornais. Oh, infeliz menina, onde estão os teus que não te protegem? Ainda és tão bela e exuberante! Apesar de muito ferida e mutilada, ainda tens teus encantos: tua serra escalavrada, teus igarapés poluídos e minguados, teu povo inculto e alienado, tua terra cortada, teus campos plantados... sim ainda és bela, muito bela. É teu aniversário e não tenho coragem de dar-te os parabéns, podes pensar que zombo de ti, ou pior, que não vejo a tua carência, que não percebo a tua miséria, que não te amo. Perdoe se não exalto tuas qualidades e aponto teus defeitos, é que as tuas qualidades têm donos e patronos, e nem são tantas a ponto de cobrir teus graves defeitos que somente serão sanados se diagnosticados, expostos, desnudados. Não te dou os parabéns, mas desejo-te felicidade, uma melhor sina.Peço a Deus que te aponte um protetor; um não, vários, todos de alma boa e simples que te amem com sabedoria e firmeza, que te ponham na linha, te melhorem o destino, te consertem a história. Peço a Deus que nos ilumine, que nos auxilie a tornarmo-nos melhores e menos egoístas, pois somos um, tu e nos, cidade menina, e somente te tornarás melhor se melhorarmo-nos como pedestres, como professores, como alunos, como políticos, como religiosos, como delegados, como juízes, como lixeiros, como eleitores, como cidadãos...

Um comentário:

Habacuck disse...

Cidade menina é referencia à forma como a cidade de Igarapé-MG é tratada no hino da cidade.

Texto escrito Habacuck no 44° aniversário da cidade de Igarape´